quinta-feira, 7 de março de 2013

A Paisagem


  Todas as noites um homem caminhava até o topo de uma longínqua montanha. De seu cume era possível vislumbrar toda a densa floresta que havia abaixo bem como as extensas planícies que pareciam desaparecer no horizonte, banhadas por incontáveis estrelas do céu noturno. Deparar-se com tal vista enchia o homem de esperanças. Talvez o vento tocando seu rosto, o éden personificado a sua frente ou quem sabe o simples respirar do doce ar daquela paisagem enquanto a lua pelo céu caminhava, fosse o que lhe inspirasse a voltar. Fosse o que fosse, todas as noites o homem caminhava até o topo daquela longínqua montanha. E olhava. Comunicava-se com a paisagem. E dela obtinha um suporte, uma ajuda e respostas. Silenciosas respostas. Que só os dois entendiam. Era um momento que com outrem não poderia partilhar. Pertencia aquele homem. Pertencia a paisagem.

  Os anos passavam e os dois enamorados criaram um vinculo impossível de se romper. De se esquecer. Mas o mundo lá embaixo reclamava a presença do homem que ao amanhecer abandona sua paixão desmedida e regressa certo, a segurança de uma vida vazia. Desprovida de sonhos e fria. Mas de certo seu coração não regressa. E todas as noites aquele homem caminhava até o topo daquela longínqua montanha. E com eu coração, olhava. 

  Os anos passaram. Já não subia todas as noites. Uma semana. Um mês e cada vez mais o tempo se esticando. Até se tornar inexistente. Hoje aquele homem não sobe mais a montanha. Não vislumbra mais a densa floresta, nem as extensas planícies que desaparecem no horizonte sob um céu onde as estrelas morreram pela ausência de alguém que as contempla-se. Alguém que agora segue seguro sua trilha solitária pelo sombrio caminho do mundo.


Thiago Grijó Silva

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